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João Alves


Imagem do Depoente
Nome:João Alves
Gênero:Masculino
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Tietê

Transcrição do depoimento de João Alves em 01 de julho de 2004
IMES - UNIVERSIDADE MUNICIPAL DE SÃO CAETANO DO SUL
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA


PROJETO MEMÓRIAS DO ABC


Depoimento de JOÃO ALVES, 85 anos.
IMES - Universidade de São Caetano do Sul, 1º de julho de 2004.
Entrevistadores: Priscila F. Perazzo e Amanda Martinez Nero.


Pergunta:
Sr. João, comece contando sobre a sua infância, onde o senhor nasceu, a sua data de nascimento.

Resposta:
Nasci dia 27 de junho de 1919, portanto estou com 85 anos. Nunca esperava chegar numa idade dessa, do jeito que eu sofri na vida. Sofri muito. Quando tinha 10 anos perdi minha mãe, meu pai tinha sítio e com a doença dela, e minhas três irmãs com pneumonia dupla, uma faleceu, meu pai ficou desorientado, com 9 filhos para criar.

Pergunta:
Onde o senhor morava?

Resposta:
Nessa época morava em Serrinha, para lá de Tietê. Meu pai, com essa doença, perdeu o sítio, ficou sem nada. Para tirar a minha mãe, para levar ao hospital, com aquela chuvarada que deu, levou embora a ponte, não tinha como transportá-la. Pegaram em 5 homens e levaram com a cama e tudo, passando pelo meio do pasto, por cima de cerca de arame, até chegar na estrada de rodagem. Aí levaram ela para o hospital, onde ela veio a falecer. Meu pai, coitado, sozinho, viemos morar numa fazenda.

Pergunta:
Fazenda de quê?

Resposta:
Era fazenda do Indalécio Camargo. Moramos lá um tempo, como escravos. Já tinha acabado a escravidão, mas nesse lugar a gente trabalhava de escravo ainda. Foi muito triste a minha vida.

Pergunta:
Trabalhava em quê? Era plantação de quê?

Resposta:
Plantava de tudo, arroz, feijão, milho, algodão, café era o forte. Então a gente sofria muito porque o patrão, o dono mesmo, nem ia na fazenda. Era o administrador. Ele colocava um capanga dele, um homem para tomar conta do pessoal e quando eram 4 horas da manhã ele batia o sino que era para o colono levantar e plantar o café e outras coisas; quando dava 6 horas da manhã ele dava três batidas no sino e tinha de sair todo mundo para ir trabalhar. A gente pegava aquela turma de 40, 50 homens. Naquela época não existia máquina nem nada, era na enxada, na foice, cavoucando a terra para plantar o milho, o arroz, algodão. E atrás ficava o administrador. Ia para lá e para cá atrás da turma. Todos tinham de trabalhar. Se um dava moleza, chamava a atenção, com aquele revólver na cinta. Dava a hora do almoço ele falava: Vamos almoçar. Descansava uma hora e tinha de voltar a trabalhar outra vez. Era de sol a sol. Não tinha relógio. Quando o sol estava entrando ele mandava embora. Eu não participava nisso porque era muito novo, mas o meu pai trabalhou lá. Trabalhava a semana inteira, chegava no sábado e ele dava um papelzinho, uma ordem, 10, 15 mil réis. Só podia gastar aquilo lá e só podia ir naquele armazém, naquela venda. Meu pai pedia isso e isso e chega. Não dava nada mais. Era escravo mesmo.

Pergunta:
Não tinha salário? Só ganhava a comida?

Resposta:
Ganhava 3 mil réis por dia. No fim da semana, conforme a gente ia trabalhando, ele via quanto ele podia dar. Você não podia atingir mais do que aquele teto que ele dava. Ali era duro. Nessa época eu tinha 12 anos, então eu levava leite na cidade. Era mensalista, ganhava 30 mil réis por mês. Tinha de ir, com chuva ou com sol, domingo, feriado, não tinha nada. Na época as casas eram sem forro, sem nada, meu pai se casou de novo e de lá do quarto dele ele falava: João, está na hora. Eu levantava da cama, descalço, mal agasalhado, porque não tinha, e ia buscar o cavalo no pasto. Eu trazia os cavalos para o cocheiro, para ir trabalhar, trazia a tropa toda, naquele capim, aquele orvalho, sem tomar café, sem nada. Às vezes o cocheiro me dava um copo de leite tirado na hora, isso eu tomava, mas em casa, minha madrasta não tinha aquele carinho por mim. Ela era muito boa, mas todas aquelas crianças. Na época minha irmã tinha ido para São Paulo e ficamos 6 mais 3 da minha madrasta, 9 filhos. Aquilo foi um sofrimento, uma barbaridade. Era levantar descalço, pisando naquele capim. Na época dava muita geada e aquele capim ficava branco, com uma casca de geada. Vocês vão me desculpar, mas vou falar, de tão gelado que ficava meu pé, a vaca acabava de cagar e eu enfiava o pé dentro para esquentar meu pé, de tão frio que estava. Eu pegava o leite e levava na cidade para os parentes do patrão. Levava em três lugares, vinha e tinha de ir na roça com o meu pai, trabalhar junto com ele. Foi muito triste a minha vida.

Pergunta:
Nessa fazenda em que o senhor morou, o senhor sabe se teve alguma época que eles andaram queimando café?

Resposta:
Sim. Nós lá não queimamos, mas aqui queimava. O governo comprava o café e colocava nas fazendas e tacavam fogo, porque deu caruncho no café. Antigamente não tinha, depois deu o caruncho no café, então eles tentaram trazer um tipo de uma vespinha, de Campinas, e colocavam nos pés de café uma lata com aquelas vespinhas e elas comiam o caruncho. Diminuiu um pouco. Ali era uma fazenda muito grande. O café, jogava aquele café no terreiro, e tem o café selecionado. Patrão pagava um tostão por litro para a mulher escolher o café verde, porque no meio vinha o café verde. Tirava o café verde para selecionar o café. Aí eu trabalhava por dia também. Teve uma época que fracassou o serviço e mandaram tirar sementes de capim para semear em outro lugar. Cortando semente de capim eu cortei esse dedo. Cortei aqui. Quando bati o ferro, tinha um cipó e enroscou, tirou a direção e pegou no dedo. Eu não perdi um dia de serviço por isso. Eu não podia apanhar café porque naquele tempo era apanhado o café na mão, então o patrão me colocou como balanceiro, para beneficiar o café. Esse café tinha uma bica grande, então num lugar caía um tipo de café, ali outro tipo e do outro lado caía outro. Tinha de pegar aquele saco de café, pôr na balança e pesar 60 kg, costurar o saco e pôr na pia para guardar o café. Foi muito difícil a minha vida. Depois disso, eu sofrendo daquele jeito, minhas irmãs todas pequenas, inclusive na fazenda, quando saímos de uma para ir em outra, o patrão, o administrador, falou para mim: Seu pai vai casar de novo e você não vai viver com ele mais. Ele vai formar uma nova família. Deixa que ele vá e você fica comigo. Se eu fosse um cara que não pensasse nas minhas irmãs, que eram pequenas, eu ficava. Eu falei para ele: Não, Gessi. Eu tenho minhas irmãs pequenas e tenho de ajudar meu pai. Ele falou que estava certo. Fiquei e fui trabalhar numa outra fazenda. Ali também foi dura a vida e a minha irmã mais velha veio morar em São Paulo, trabalhar como empregada e ela ia passear lá e me chamava para vir para São Paulo. Eu tinha um dinheirinho, mas como eu tinha esse dinheirinho? De domingo, sábado depois do almoço, eu ia plantar um pouco de feijão. Plantava fora e meu pai não se incomodava. Eu plantava e era meu. Eu colhia aquele feijão, deu três sacos de feijão, vendia a 60 mil réis o saco, um preço colossal. Eu fui o primeiro a colher aquele feijão, então vendia e com esse dinheiro eu vim passear em São Paulo. Vim aqui, minha irmã me levou para conhecer o prédio Martinelli, o único prédio grande de São Paulo. De lá fui conhecer São Bernardo, porque tinha um primo que morava lá. São Bernardo era uma rua só e não tinha mais nada. Fiquei e minha irmã falou para eu morar em São Paulo, porque ela estava namorando um rapaz, casou com ele, um cara muito bom, que tinha uma indústria pequena, uma firma, ele falou que arrumava serviço para mim. Eu falei com meu pai, mas se eu saísse de lá meu pai não tinha como viver sozinho lá, para sustentar tudo lá. Aí resolvemos e viemos todos para São Paulo e viemos morar em São Caetano. Na época São Caetano não tinha asfalto, era tudo terra. O esgoto corria por cima da rua. Era um mosquiteiro São Caetano. Pode perguntar para pessoas antigas. Você não tinha como entrar dentro de casa, de tanto pernilongo que tinha. Na época não tinha esses produtos que tem hoje, Detefon, essas coisas. A gente pegava trapos, panos, enchia a casa de fumaça para poder dominar os pernilongos. Aí foi triste. De lá fui morar em Utinga, vendemos a criação que a gente tinha lá.
Pergunta:
Do quê?

Resposta:
Tinha umas vacas e viemos comprar uma casa em Utinga. Eu recebi o pagamento, eu trabalhava na Laminação, vinha um envelope fechado e eu tinha de dar para o meu pai, fechado, sem abrir. Ele dava para mim 3 mil réis por mês para eu passar o mês. Era duro. Eu pensei: Vou me casar e pronto. Eu peguei e casei. Fiquei um ano só. No primeiro filho a mulher ficou doente, ficou fraca do cérebro. E para a gente internar essa mulher? A gente vem do interior, não tem conhecimento em nada, foi triste a minha vida. Arrumei um médico e ele encaminhou para internar ela. Internei lá, ela ficou boa, trouxe para casa, depois tornei a internar. Internei quatro vezes nesse hospital, Dr. Paulo Simione, já falecido. Mas ele me ajudou muito, um homem muito bom. Ela foi ficando no hospital, ia e voltava e o médico me disse: Tira o paletó e senta lá, quero ver você. Eu me preocupo com você. Eu estava bem, mas ele falou para eu esquecer dela, porque o caso dela não sai disso. Ela não vai melhorar. Ela ficou de um jeito que dava para ter ela em casa, não estava sendo mais agressivo. Ela ficou lá, mas as crianças, dois filhos, aí falaram que se eu arrumasse um segundo filho, na dieta ela sarava. Arrumei outro filho e foi pior ainda, foi triste. Aí tive de cuidar da criança, tinha de trabalhar. Levantava de noite para olhar a criança no berço, estava toda molhada, toda suja. Se ela não tinha cabeça, juízo, era a mesma coisa que pegar um pedaço de pau. Ela não sabia agradar. Eu sofri demais. Trabalhando, olhando meus filhos, eles na escola, vinham reclamar deles. Eu falava para o diretor, porque o mais velho era bem safado e eu falava para ele, o Sr. João, um negrão: Sr. João, meu filho quando chegar na escola o senhor que é o responsável, o senhor que é o pai, se for preciso, pode dar até umas palmadas, eu autorizo. Aí ele colocou o moleque mais ou menos. Eu ali trabalhando, lutando, comprei terreno, fiz casa, sozinho, sem a ajuda de ninguém, eu e Deus.

Pergunta:
Em que escola seu filho estudou?

Resposta:
Aqui na Carlina, na Popular. Depois ele não quis estudar mais. Nessa época, quando ele estudava, eu já tinha propriedades, quatro casas.

Pergunta:
O senhor lembra que época era? O senhor tinha quantos anos?

Resposta:
Agora é duro de lembrar. Meu filho nasceu em 1941, mais ou menos em 55 por aí.

Pergunta:
Eu mandei ele estudar. Ele tirou o quarto ano e eu queria que ele continuasse o estudo. Não quis estudar. Queria trabalhar. Eu arrumei serviço para ele na Fichet e ele trabalhou 4 anos, depois ele foi para a Laminação e depois entrou na Volks e lá ele ficou 20 anos e se aposentou na Volkswagen. O mais novo foi a mesma coisa. Se não queria estudar, vai trabalhar, porque na rua você não fica. Ele foi trabalhar e já são avôs também. Eu dei três casas para cada um dos meus filhos, com tudo o que passei na vida. Com o meu sacrifício, eu dei três casas para cada um.

Pergunta:
Conta para a gente o seu trabalho na Laminação de Metais. O que o senhor fazia, como era o seu trabalho lá dentro?

Resposta:
Na Laminação, no tempo da guerra foi triste. Acho que sofri mais do que os que foram para a guerra. Eu não, todos que trabalhavam lá. Ali trabalhavam 4 mil pessoas dentro da Laminação. Nós produzíamos material para a guerra, para fazer bombas. Nós fazíamos o cartucho e mandávamos para a CBC e outros lugares que não sei. Lá eles faziam o carregamento dos cartuchos. Trabalhava das 6 horas da manhã às 10 horas da noite. Hoje a rapaziada trabalha 8 horas e acha que é muito. Antigamente a vida era triste. Esse tímpano estourou, eu não escuto de um lado. Hoje tem aparelho para pôr no ouvido para proteger do barulho, dão luva. Naquele tempo não davam nada, tinha de trabalhar ali.

Pergunta:
Em que máquina o senhor trabalhava?

Resposta:
Fazia esse tipo de perfil. Na época os ônibus usavam uns enfeites em volta e fazia muito aquilo, mas trabalhava também fazendo, prensava e saía uma barra e fazia estilhaço, cortava em pedaços e iam caixotes e caixotes para fazer bombas. No tempo da guerra era rigoroso. Até para conversar, eu mesmo fui chamado, porque eles gostavam muito de mim. Eu sempre fui cumpridor dos meus deveres e muito bem visto onde eu passei. Eles me chamavam lá e falaram para eu tomar cuidado com o que eu falava, conversava com as pessoas, porque você pensa que é um qualquer que entrou ali e é um investigador, por causa da guerra, da política. Então, queriam ver se a pessoa era honesta, não era contra o governo, essas coisas todas. Foi duro.

Pergunta:
E o senhor tinha algum sindicato pela Laminação, era filiado a algum sindicato?

Resposta:
Em 1941 tinha uma moça do sindicato e arrumou para nós. Chamava Carmem Savietto e o irmão dela era Euclides Savietto. Essa moça pegou uma seção inteira. Ela era do escritório e ela fazia uma rifinha de um boneco e dava a rifa para eu vender, porque eu era mais chegado na turma. Ela falava para eu entrar no sindicato e entrei no sindicato e a fábrica inteira entrou. Aí começaram as greves. Até a cavalaria foi para cima dos grevistas.

Pergunta:
O senhor lembra quando foi essa greve?

Resposta:
Foi em 1942, 1941. De 1941 para cá foi sempre greve. O Lula subiu por causa disso. Ele se apegou aos metalúrgicos, aos grevistas e hoje está lá em cima. E nós estamos aqui embaixo. Eu não culpo o Lula, até votei nele, porque falam que o desemprego, tem desemprego, mas na época, isso falo da roça, trabalhavam 50 homens para plantar num pedaço de chão, depois ir carpir, porque tinha de tirar o mato. Hoje não tem isso. Hoje a máquina chega lá, onde trabalhavam 50 homens, a máquina faz tudo sozinha. Agora, aqueles homens que ficaram desempregados, para onde vão? A firma é a mesma coisa. Agora tem robô, tem tanta coisa, modificou tudo. O desemprego não é o governo que vai tirar fácil. Eu acho que do jeito que está indo, o homem não vai trabalhar mais. A história que tinha para contar para vocês, porque às vezes pessoas da sua idade, tanto você como meu filho, reclamam da situação, reclamam da vida, mas veja o que eu passei. Na minha época toda a rapaziada passou, não só eu.

Pergunta:
O senhor tinha carteira assinada na Laminação?

Resposta:
Tinha. Eu tinha todos os documentos certos. Passou de três meses, passou da experiência, era lei, se mandava embora, tinha de pagar. Eu estava com 8 anos e cheguei e pedir a conta e fui embora. O mestre falou para não ir, porque eu não tinha ofício, fica com a gente. Eu contei que ia trabalhar com meu cunhado, que tinha um negócio de tamancos, chinelos. Trabalhei com ele um pouco, mas quando entrei, vi que não dava certo e saí. Quando ele soube que eu estava desempregado, mandou me chamar. O mestre brincou comigo e me mandou para o escritório e quando cheguei lá não podiam mais me pegar, porque eu tinha 8 anos e saí. Se eu voltasse, ia ter direito aos 8 anos. E o mestre ficou bravo, que precisava de mim, que eu era um bom operário, mas não podia. O mestre puxou uma cadeira e mandou eu sentar. Ele foi na diretoria, brigou e de lá telefonou falando que podiam pegar. O chefão saiu e disse: Você é peixinho do homem. É que eu trabalho. Não precisei nem fazer exame médico. Depois de um ano veio uma lei e tinha de acertar todos os velhos, chamaram ele, os outros e eles fizeram acordo para receber. Quando me chamaram, eu não sabia o que fazer. Eu tinha 8 anos e mais aqueles, dava quase 14 anos de firma, eu falei que não faria o acordo. O engenheiro me chamou, meu apelido era João Carretel: Carretel, o que está acontecendo? Eu falei que não queria fazer o acordo porque não sabia quantos anos tinha lá, porque tinha saído e voltado. Ele me falou: Você não é sócio do sindicato? Vai no sindicato e vem dar a resposta. Quando saí do escritório, quando ia fechar a porta, eu voltei e disse: Eu nunca fui ao sindicato para dar queixa da firma e eu não vou, não. O senhor conhece muito bem as leis, então vocês sabem quais são os meus direitos. Ele falou: Pode ir trabalhar e deixa comigo. Ele foi ao escritório. Quando estava tomando água o diretor passou, bateu nas minhas costas: Carretel, pode trabalhar sossegado, porque ninguém mexe com você. Você é estabilizado. Por que você não falou para mim? Falar por quê? O senhor tem a minha ficha. Aí passou aquela leva, acertou com todos e passou a chamar os que tinham 14, 15 anos, como eu tinha. Ele me deu o acordo, eu recebi um pouco e continuei trabalhando. Aí foi triste, foi duro, porque lidar com operário, tem os bons e os ruins. Tem gente que é bom, trabalha bem e tem outros que não trabalham. Eu tomava conta. Tudo sendo analfabeto, não tendo escola, eu passei a ser chefe, a tomar conta da peãozada. Eu tomava conta de cara que tinha diploma. Eu tinha até vergonha, mas eu não deixava eles saber que eu era analfabeto. Eu mandava em mais de 40 homens. Quando ele me chamou para o acordo eu aceitei. Eu recebi um pouco e continuei trabalhando. Mas o Pignatari ficou fraco da cabeça e começou, ele nunca vinha na fábrica e deu de ir lá e brigar com o operário. Ele brigou comigo. Queria fazer um tipo de serviço que não tinha condições de fazer. Eu tive de explicar para ele que estava o chefe, o alemãozão e o Pignatari. Ele falou e eu vi que o chefe não falava nada e eu falei: Sr. Pignatari, esse material aqui nós não conseguimos fazer e ninguém faz. Esse material é seco, não solta. Era o bronze fosforoso. De tanto que sofri, nem o número não esqueci, é 506. Ele falou, com muita malcriação: Alguém pediu a sua opinião? Eu ri na cara dele: Mas eu estou dando a minha. Ele levantou, saíram e foram embora e o alemão falou que eu não podia falar isso, que ele não queria que falem que não vai dar. O senhor está sabendo que não vai. Tem de falar, se não ele pensa que nós somos bobos. Estava trabalhando das 2:00h às 10:00h. Ele mandou eu fazer um serviço, mas na minha máquina não cabia. Tinha de colocar na outra máquina. E quando ele veio eu falei que não tinha feito porque não cabia na máquina. Manda pôr lá, já. Eu falei com o rapaz, ele pôs lá e fez o serviço. Quando eu vim trabalhar de dia ele chegou em mim e viu uma máquina parada e perguntou: Por que aquela máquina está parada? Falei que estava porque ia trocar o material. Ele virou olhando para lá e eu virei as costas e saí. Ele me pegou por trás e me puxou: Eu não gosto que ninguém vire as costas para mim, entendeu? Eu falei: Não é meu costume virar as costas para ninguém, muito menos para o senhor, mas pensei que o senhor tinha terminado o assunto. E nisso chamaram ele e dei graças a Deus. Quando fui trabalhar no outro dia, não deixaram eu entrar na firma. Mandaram conversar com fulano. Fiquei sentado lá. No outro dia o diretor chegou e disse que eu estava proibido de entrar na firma, que podia ir só na enfermaria, no vestiário. Tudo bem. Aí ofereceram um acordo para mim, muito pouco, e não aceitei. Sabe quanto tempo eu fiquei sentado na portaria? Seis meses, sem trabalhar.

Pergunta:
Já tinha fundo de garantia nessa época?

Resposta:
Já. Eu fiquei seis meses sentado, porque todo aquele acordo não valia de nada, porque ele não podia me mandar embora.

Pergunta:
Mas o seu salário eles pagavam?

Resposta:
Sim. Eu tinha passado a mensalista. Fiquei sentado lá seis meses. Tinha vezes que resolvia, entrava de turma, entrava às 6 horas e saía às 2 horas. Já ia bem arrumado, com a melhor roupa. Saía do serviço e ia para São Paulo. Nem trocava a roupa mais. Ficava como bacana. Vinha comprador, pensavam que eu era o dono e vinham falar comigo. Eu mandava o guarda atender, falava duro e todos pensavam que eu era o dono. Ali fiquei, e chegou uma época que não estava agüentando ficar sentado o dia inteiro. Depois passaram um outro velho, o seu Francisco, que era chefe da aviação, porque faziam avião também e puseram ele junto comigo, porque ele não quis fazer acordo. Ele pegava a bíblia e era o dia inteiro lendo a bíblia. No vestiário tinha uma porta grande e em frente era o escritório. Como eu entrava às 6 horas, estava meio escurinho, eu escrevia: O bom cabrito não berra. O diretor mandava apagar e perguntava quem escrevia. Passava um pouco, a gente chamava ele de Chico e escrevi: Convento do Padre Chico. Gostavam de mim. A cada pouco me chamavam e aumentavam o dinheiro. Um dia eu mandei falar: Fala para o Pignatari que eu nunca estive numa boa como estou agora. Não quero outro vida, não quero esse acordo. Nada de dar esse acordo para mim. Chegou uma época que não dava mais e o diretor me chamou. Depois fui para o Uruguai ver o Palmeiras jogar. Eu não tinha o que fazer, e me convidaram lá em São Paulo, meu cunhado falou: Vou, se meu cunhado for. Eu fui. Pegamos uma excursão da Gazeta e fomos para o Uruguai. Eu era mensalista, perdi uns 10 dias. O Palmeiras perdeu.

Pergunta:
Como a gente já está chegando perto do fim, na época da guerra, fora o trabalho dentro da Laminação, como era a condição na cidade? Tinha alguma restrição, escassez de alimentação, apagava a luz? O senhor falou que tinha um alemão na fábrica, tinha algum problema com ele?

Resposta:
Na fábrica não, mas na cidade tinha blackout, apagavam todas as luzes.

Pergunta:
A que horas?

Resposta:
Não lembro bem a hora. Se eu contar o que passei... Antes de Getúlio Vargas entrar, a doença lepra, não pode misturar com ninguém, porque é contagiosa, esses homens doentes andavam a cavalo na estrada pedindo comida. Dormiam na estrada, embaixo de ponte. Depois que o Getúlio entrou, recolheu essa gente.

Pergunta:
O senhor lembra se os alemães, o senhor conhecia alguns, mas se os italianos na época da guerra tiveram algum problema?

Resposta:
Os japoneses, italianos, a Quinta Coluna. Que judiação.

Pergunta:
Eles eram mesmo?

Resposta:
Eram nada, coitados. Trabalhavam com a gente. Eram uns coitados. Foram judiados mesmo.

Pergunta:
O que faziam com eles?

Resposta:
Perseguição. Eu tinha um encarregado, Germane, ele tinha um revólver e ele enterrou o revólver na casa dele. Quando ele tirou, estava todo enferrujado. Japoneses e italianos sofreram muito. Foi uma injustiça o que fizeram. Quem levantou o Brasil foi a colônia italiana.

Pergunta:
O senhor sabe de alguém que foi preso por aqui ou só perseguição?

Resposta:
Esse Euclides Savietto foi preso, sumiram com ele, o irmão da Carmem. Ele era ferramenteiro, muito bom, rapaz estudado, sumiram com ele. Quando ele voltou na firma, não conhecia mais ele. Aqui afundou, arrebentaram tudo a cara dele. O osso da cara afundou, estava deformado. Aí o Pignatari colocou ele como chefe da ferramentaria.

Pergunta:
Mas isso foi no Getúlio ou foi depois, nos militares?

Resposta:
Foi no Getúlio. Ele entrou dentro da firma com o carro dele. Lembro que tinha uma parede grande escrito: Proibido fumar. O Getúlio falou: Por que é proibido? Tem alguma coisa? Não tem. Então deixa que eles fumem. Se pagasse o cara fumando, ia suspenso.

Pergunta:
Mas no dia que o Getúlio visitou, todo mundo pôde fumar?

Resposta:
Sim.

Pergunta:
Para a gente terminar, o senhor gostaria de falar alguma coisa para fechar o seu depoimento, deixar alguma mensagem gravada?

Resposta:
Eu deixo o que falei aqui para eles acreditarem no que falei, saber que aquilo era verdade e passou, na época passamos por isso. Você tem de passar para os seus amigos que a vida de antigamente era triste. Eu acho que se Deus desse o poder, de quem morreu 50 anos atrás poder voltar e ver o mundo, morreria de novo. Não tinha rádio, não tinha nada.

Pergunta:
Por falar em rádio, o senhor lembra de alguma música do tempo do rádio, que vocês ouviam?

Resposta:
A gente não ia atrás de música. Quando ouvi rádio portátil, meu cunhado veio em casa, eu estava deitado, descansando, ele entrou com o radinho e eu escutava o rádio e não via nada, foi só risada. Era novidade.

Pergunta:
E o que vocês gostavam de ouvir no rádio? Os programas?

Resposta:
Novela. Eu ia pegar às 10 horas e assistia uma novela na casa de um camarada, porque não tinha rádio. Eu descia um pouco na casa dele, assistia a novela e ia correndo trabalhar.

Pergunta:
O senhor lembra o nome?

Resposta:
Não lembro mais. O nome do cara era Clarindo. Era bonita.

Pergunta:
E música, o que vocês gostavam de ouvir no rádio?

Resposta:
"Saudade do Matão". Minha mãe era mocinha, uns 14 anos, ela foi a um baile lá em Piracicaba e meu tio era professor de dança e ensinou ela a dançar. Ninguém agüentava ela na segunda-feira trabalhando e cantando "Saudade do Matão" o dia inteiro. A vida era triste, sofrida, mas a gente fazia ficar boa. O pessoal não tinha dinheiro, arriava um burro, ia na roça de milho, pegava umas espigas e ia numa casa e sentava. As moças, os rapazes, tudo descascando milho para fazer pamonha. De noite cantava versinhos. Hoje você nem sabe essas coisas. Minha neta está na faculdade e quis que eu desse uns versos para ela. Ela fez um relatório grande dos versinhos que a gente cantava. A gente cantava os versos para as moças e elas respondiam os versos para a gente. Ficava até 11:00h, meia-noite, de sábado. Às vezes fazia bailinho na colônia. Era uma distração que a gente tinha.

Pergunta:
O senhor quer falar mais alguma coisa?

Resposta:
Pode crer que eu passei por isso e todo o meu tempo passou. Teve um tempo que eu tive vergonha, mas depois era moço, era triste.

Pergunta:
Mas o senhor está contando uma história bonita.

Resposta:
Da minha idade tem bem poucos. O resto já foi. Um rapaz foi engraxar o sapato na cidade, o coitado não queria tirar o sapato. O sapateiro pediu o sapato, mas a meia só tinha o cano. Veja a miséria. Não era só comida, era geral.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul